Tenho mil cartas escritas dentro de mim.
Todos os versos são sobre você.
As guardo pra te dar, mas nunca mando.
Talvez porque me transbordo tanto que não sei se você conseguirá compreender.
Meu eu é tão perverso e egoísta quando se trata de ti,
não tem pudores,
só tem temores,
por medo
de te perder.
Talvez você consiga lê-las todas as vezes em que perco meu olhar no seu.
É um desafio e tanto não ceder a insanidade quando você sorri,
é como se faltasse meio passo até o precipício.
E é ai que eu peco, digo eu te amo em silêncio,
e escrevo nas bordas das cartas
o teu nome milhares e milhares de vezes
como se você preenchesse cada espaço vazio dentro de mim.
Então, ao seu toque sobre meu corpo eu as exponho, deixo as em teu poder
todas as cartas, todos os versos,
todas as frases mal feitas e todas as rasuras que tentei esconder o tempo todo.
Mas você não as lê, não precisa.
Você simplesmente a cada toque, as mistura com as suas próprias cartas
e juntos escrevemos através de nossos corpos o livro da nossa história.

Onze.
Começo com a quantidade de vezes em que rolei na cama até agora.
Há alguma coisa errada, chamo pelo sono mas ele não vem.
A cama ainda é a mesma mas meu corpo não consegue repousar.
Doze.
O intervalo em segundos em que pensei em você mais uma vez.
Os lençóis estão macios, mas ao procurar por aquele cheiro só sinto a decepção.
As almofadas parecem não preencher um espaço específico que parece faltar em meus braços.
Treze.
Os suspiros se igualam no número do azar.
A noite foi ficando cada vez mais cruel e difícil de suportar a maneira em que eu fechava os olhos, imaginava o seu toque mas não conseguia senti-lo; ao procurar com os braços pelo meio das suas costas onde eu sempre repousei meu braço antes de te admirar e acabar pegando no sono, mas no fim não ter sucesso.
Minha própria mente me torturando.
E na vã esperança de tentar dormir mais uma vez, fechei os olhos, mas como se eu não pudesse controlar, meu cérebro congelou qualquer necessidade física ou psíquica e só deixou a necessidade de você.
Porém, seu cheiro já não habitava meu corpo, seu calor e seu hálito gostoso não contornavam meu pescoço, foi assim que me dei por vencida.
Tudo me remetia a você porque cada pedaço, cada detalhe seu parecia estar colado e gravado em minha alma, era como se tudo só fizesse sentido quando você está por perto, como se eu funcionasse direito apenas na sua presença.
Por um momento tive vontade de chorar.
Chorar por ser fraca.
Chorar por não aguentar, por não funcionar se quer um minuto sem você.
Mas voltei a sorrir quando lembrei do jeito manhoso em que você acabou dormindo na noite anterior ao meu lado.
Sorri porque me sinto eterna só de pensar em nós dois.
Só de pensar no teu sorriso, na tua manha, na tua teimosia e no teu jeito gostoso de dormir pelado.
Meu coração pareceu se acalmar.
Essa não seria a última noite miserável mas parecia estar chegando ao fim.
Me deixei levar.
Pensei em você com toda força e me despedi mentalmente pois sabia que nosso próximo encontro seria em breve, lembrei da tua imagem e sussurrei bem lentamente:
— Te vejo em meus sonhos!